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Publicado em 14 de Março de 2017 às 17h:04

O Falcão e o Pato: Uma fábula dos esportes de luta

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Autor Daniel Leal


A falcoaria, segundo o dicionário, pode ser definida como uma “caçada com falcões”. É uma modalidade de adestramento e competição aonde a precisão e velocidade da ave de rapina são refinadas ao máximo por seu criador visando ter o melhor exemplar nestes quesitos em sua categoria. Acontece que, no mundo das lutas, aparentemente acertaram uma competição desse tipo entre um falcão treinado, e um pato…
(Imagem: Montagem R13)

O pato é um animal simpático. Tem carisma, anda engraçado, fica na dele. Nada contra os patos, portanto. Ainda assim ele não conseguiu estabelecer-se no topo da cadeia alimentar. É caçado, dependendo da espécie, por ursos e aves de rapina, por exemplo. Como ele nada, voa e consegue caminhar – sem fazer nada disso com muita excelência – sua linha de defesa geralmente é essa: Utiliza as armas que o adversário não possui.

A espécie “Mandarim”, por exemplo, esconde-se de seus predadores, como o FALCÂO, mergulhando na água, território que seu inimigo não domina. Imagine, então, que este mesmo pobre patinho seja jogado em um local nada próximo de um rio, lago, ou lagoa, e esteja rodeado de falcões. Agora vá mais além e pense na falcoaria.

Os especialistas definem a falcoaria como a “ciência que utiliza técnicas para adestramento de aves de rapina com a finalidade de captura de presas; considerada por muitos uma forma de arte devido ao seu alto grau de sensibilidade e dedicação exigidos para sua prática”.

Será que um ser onívoro como um pato, que não tem as mesmas habilidades de um falcão, de um gavião, de uma águia, poderia competir, com alguma chance, em um dos vários torneios que existem ao redor do mundo? Mais além, será que, ainda que competisse, alguém apostaria no pato?

Por que raios, então, alguém em sã consciência apostaria em Conor McGregor frente á Floyd Mayweather Jr., nas regras do pugilismo, se ambos são de “espécies” tão distintas?

No MMA não tem boxe

Pasme! Nas artes marciais mistas não se disputa pugilismo. É isso mesmo fã incauto do UFC que caiu de paraquedas no Round13, deixe eu te contar uma novidade: Apesar de técnicos de boxe fazerem parte das equipes, ex-pugilistas amadores (em sua maioria) competirem nos octógonos e “cages” da vida, e treinamentos específicos da nobre arte fazerem parte da preparação de um atleta do esporte antigamente conhecido como “Vale-Tudo”, nada, absolutamente nada, do que você vê ali É o boxe. Pode parecer, mas não é.

Um lutador de MMA deve se preparar para muitas coisas, deve caminhar de outras maneiras, deve estudar outras artes de combate. O tempo de um especialista para cada modalidade já passou, hoje, ou todos sabem um pouco de tudo, ou não sabem nada. Um pugilista nato, um atleta cujo talento é voltado para a nobre arte dos punhos, tende á, via de regra, manter-se em sua modalidade.

Salvo dificuldades para tal, como é o caso do Brasil, infelizmente, um boxeador vai fixar-se sempre no boxe. As bolsas do pugliato são maiores, principalmente para quem demonstra talento desde cedo. No pico da carreira a disparidade monetária entre um atleta de MMA e um do boxe atinge seu ápice. Conor McGregor, que o diga. Maior nome do UFC em arrecadação atualmente, até hoje fez cerca 25 milhões de dólares em toda sua carreira. Menos do que Saul “Canelo” Alvarez recebeu somente em sua última luta. Menos do que Floyd Maywether Jr. ganhou, exclusivamente em patrocínios, para enfrentar Manny Pacquiao. Menos do que o próprio Mayweather ganhou contra Andre Berto, quando vendeu apenas 500 mil pay-per-views.


Imagem: BJ Penn.com

Qualquer profissional sensato não teria dúvidas em escolher: Se for pra colocar sua pele em risco, que seja sempre pelo maior retorno financeiro!

A razão pela qual um boxeador nato sempre escolherá o boxe, é portanto, óbvia. Pode ser que isso mude um dia, mas o cenário atual é este. Não existe, portanto – diferente do alardeado por aí há anos – pugilistas realmente bons e talentosos em quaisquer torneios de artes marciais mistas. Se existem, jamais chegarão ao nível de excelência necessário dentro do quadrilátero de cordas pelo simples fato de não se dedicarem exclusivamente a isso.

Me lembro da época em que Vitor Belfort era a bola da vez, o “melhor boxeador do UFC”. Ele tentou, em vão, participar das olimpíadas de Sidney, em 2000, pela seleção brasileira de boxe. Não foi por falta de politicagem. Vitor chegou a conseguir uma chance, ele “só” teria que passar por Marcelino Novaes, titular dos pesados, na época.

Então, em abril daquele ano, a equipe brasileira foi para Cuba preparar-se. Belfort foi junto. Ele treinava separado, tinha todas as regalias e até dicas de como vencer Marcelino eram passadas pelos próprios treinadores de Novaes, segundo o mesmo. Ai veio a luta, esperadíssima até pelos cubanos que lotaram a academia para acompanhá-la. O desfecho desta história deixo para o próprio Marcelino relatar, conforme entrevista realizada no ano de 2009:

“Lutamos e derrubei ele por duas vezes, sendo que ele demorava mais do que 10 segundos para retornar, ou seja, se fosse oficial, seria nocaute técnico. Como estava tudo armado, a luta continuava. Mesmo assim ganhei por pontos, algo como 6 a 2. Depois teríamos que lutar novamente no México, onde eu estava pronto e esperando, pois já estava a par da situação. Mas ele não apareceu e ficou por isso mesmo, acho que ele desistiu de tentar.”

O que ocorreu com Belfort foi muito simples: Ele percebeu que o boxe em alto nível merecia algo mais do que algumas semanas de treinamento específico e tratamento de celebridade. Em 2006 aventurou-se novamente em uma exibição como profissional, vencendo, sem muito destaque. O oponente nem chegava aos pés da qualidade de Novaes, que era temido por onze em cada dez atletas amadores nos torneios no Brasil.

Mas parece que essa lição não foi aprendida. E continuam achando que o boxe é apenas um detalhe.

Um pugilista é como um falcão, treinado para a arte da falcoaria.

Se você treinar um falcão para nadar, é provável que ele se afogue. Está longe de ser uma ave que caminha com desenvoltura na terra. O pato é melhor do que ele nisso, mas não consegue dar tiros aéreos de centenas de metros para agarrar uma presa de forma eficiente e precisa. A simpática ave que nada, anda e voa, tem suas qualidades, mas falcoaria não é uma delas.

Tal qual Conor McGregor é muito bom no que se propõe à fazer, para o boxe ele é apenas um pato tentando enfrentar os falcões. Ocorre que em cima de um ringue ele não tem como mergulhar na água para se esconder.

Em uma contenda contra Floyd Mayweather Jr., o falcão mais destacado de sua espécie, sob as regras do Conde de Queensberry, nosso querido ovíparo não poderia fugir da sua presa levando a luta ao solo, chutando, aplicando chaves, ou guilhotinas. Ele teria que vencê-lo apenas dentro do limite da falcoaria. Só que Conor McGregor é apenas um pato…

Só existe um dos envolvidos, além de Mayweather, que sabe bem o final desta história: Dana White


Imagem: MMAWeekly.com

Se toda fábula tem uma moral, a desta apenas o presidente do UFC, Dana White, parece ter compreendido. Primeiro ele sai em defesa de Conor e tenta fazer ofertas “reais”, que mais pareceram piadas, visando pressionar Floyd a desistir. Como isso, obviamente, não deu certo, sua carta na manga agora é outra.

Com a iminente negociação entre as partes sendo firmada, usará a força contratual para manter McGregor longe do tablado. Seu atleta, no entanto, usará o “Muhhamad Ali Act”, lei que protege os pugilistas de acordos leoninos, como trunfo para tirar o intermediário da jogada e ganhar uma bolsa ainda maior.

Para McGregor, vale a pena ser amplamente batido pelos falcões quando esta derrota paga sua carreira inteira e ainda sobra para uma gorda aposentadoria, se ele assim quiser.

Ser banido do UFC? Ficar de mal com Dana White? Qual a importância disso perto de um cheque que paga a ele mais do que o restante de sua passagem pelo esporte?

O potencial financeiro é inversamente proporcional na relação Conor/UFC. White sabe, por conhecer a moral da fábula do Falcão e o Pato, que o resultado deste confronto não é exatamente bom para seus negócios. Na verdade, é péssimo.

Um competidor do Ultimate Fighting Championship sendo engolido por um boxeador é a última coisa que poderia suportar um evento que, em toda sua existência, gabou-se de ser “mais completo” do que qualquer outro, e usou isso como gatilho promocional para “vencer” o boxe em uma luta que nunca existiu.

Como explicar a humilhação que sofreria o irlandês se o MMA é tão superior? Como os “novos gladiadores” seriam vistos após serem expostos em uma “simples” luta de boxe, um esporte tão pouco eficiente, na visão destes, que sequer usa as pernas, o chão, o cotovelo? Afinal, é “só” boxe…

Conor McGregor é o melhor pato do bando. É o macho alpha. O “homem mais temido da Terra”. Como isso tudo ficaria após um encontro com Mayweather dentro das quatro cordas?

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