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Publicado em 26 de Março de 2017 às 21h:24

Os bastidores do boxe: Como Del chegou ao mundial?

AutorDaniel Leal


Muitos leitores têm a curiosidade de saber como funcionam as negociações e tratativas no meio do pugilismo mundial. Em menos de um mês, Adeilson dos Santos, o Del, estará em uma disputa mundialista e nada melhor do que saber como foram essas negociações com quem às conduziu. Conversamos com Patrick Nascimento, da IBG, para saber como ele negociou esta oportunidade para um brasileiro lutar pelo mundial da OMB nos super-galos
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 (Imagem: Arquivo Pessoal)

O boxe profissional não é apenas um esporte. É um negócio. Existem muitas tratativas, jogos de bastidores, interesses e oportunidades que levam uma luta à realmente se materializar. E existe muita vontade do grande público em saber disso, afinal, são poucos os que fazem parte destes bastidores. Nossos leitores, em especial, sempre tiveram esta curiosidade.

Adeilson dos Santos (19-2, 15 ko's), o Del, disputará, em 22 de Abril, o cetro mundial OMB dos super-galos. Patrick Nascimento, da IBG, foi quem tratou diretamente disso e negociou este feito. Aproveitamos, então, para questiona-lo como tudo aconteceu, afinal, são raras as ocasiões em que um brasileiro consegue chegar neste patamar e disputar um título das quatro grandes entidades. Nas palavras de Nascimento:

“A luta do Del eu negociei com a Top Rank, com o Brad Goodman (matchmaker). Ele quem me deu a oportunidade. Estávamos negociando a luta contra o Oscar Valdez, e ficou um impasse. Acabou que o Valdez teve que fazer uma defesa mandatória contra o (Miguel) Marriaga, e íamos enfrentar quem vencesse. Nesse meio tempo, o Jesse (Magdaleno) acabou ganhando do (Nonito) Donaire, e o Del, você sabe, é super-galo, mesmo vindo lutando nos penas. Então apareceu essa oportunidade. Foi difícil porque tiveram muitos trâmites com televisão. Era para ser na preliminar do Manny Pacquiao, então ficou pra ser feita em Dubai, depois Austrália [aonde Pacquiao enfrentaria Jeff Horn], até que decidiram que ia pra Califórnia, e ai a TV aceitou.”

Repararam que a termo “televisão” foi utilizado mais de uma vez? Nos EUA a TV decide muito mais do que se imagina. A HBO chega a solicitar três opções de desafiantes, ou de lutas distintas, para que ELA aponte qual quer pagar e transmitir. Se não for feita a vontade da mesma, não há dinheiro, e sem dinheiro, nada feito. Patrick falou exatamente sobre isso, que é uma das consequências da má reputação que os brasileiros têm lá fora:

“Foi uma negociação bem difícil. Pra um brasileiro disputar título do mundo, não é toda TV que aceita. Então eu tive que batalhar duro, desde as negociações com o Valdez eu venho mencionando o nome do Del, pressionando pra fazer acontecer a luta, e graças a Deus a oportunidade saiu”

Isso se dá devido ao péssimo passado nosso no exterior. Ocorre que, em muitas ocasiões brasileiros despreparados vão para fora do Brasil apenas para receberem a bolsa e irem embora, sem sequer oferecer alguma resistência. Derrotas fáceis trazem má fama ao evento, se ficar tão clara esse tipo de disparidade. E, embora seja essa a intenção de alguns promotores estrangeiros, as emissoras não querem transmitir esse tipo de espetáculo, daí a dificuldade em aceitarem o nome do boxeador da baixada santista.

Como fica claro, se já é difícil chegar lá, mais ainda tendo nascido no Brasil. Sem um bom contrato com uma grande promotora – tal qual os irmãos Esquiva e Yamaguchi Falcão, Robson Conceição e Everton Lopes – pior ainda a situação de quem almeja este patamar. Não há CONFIANÇA de que o contratado fará, no mínimo, seu papel, e entre para vencer.

Falando em vitória, sem dúvidas, Del é o azarão. Jesse Magdaleno é um duríssimo oponente e a lógica diz que deve manter o cinturão. Para desafiar as probabilidades, no entanto, o atleta tupiniquim tem feito uma preparação especial.

“O Del está se preparando há dois meses aqui em Las Vegas, fez sparring com Donaire e o Jorge Linares pra luta. Muita gente estava achando que outros brasileiros iam chegar primeiro pra uma disputa de cinturão, e a gente conseguiu essa façanha” - disse, orgulhoso, Nascimento.

Filho de Edson “Xuxa” do Nascimento, que é o atual treinador de Dos Santos, Patrick fala, sem falsa modéstia, sobre sua trajetória como matchmaker da International Boxing Group. Atuando desde os 16 anos nessa função, ele pontua que não se tem conhecimento de que mais alguém, de 21 anos, tenha fechado um desafio a campeonato do mundo para um lutador seu. “Hoje estar aqui, nos Estados Unidos, fechar uma luta dessa com a Top Rank, posso me dizer realizado. Se o Del sair campeão, é um grande sonho, mas só de estar aqui já é muito importante pra mim, me sinto parte da história, até porque, há muito tempo um brasileiro não disputa um título do mundo”

Ele não está errado. Claramente, Del não seria a primeira opção de desafiante. Ele ocupa a 12ª colocação na categoria pela Organização Mundial de Boxe. Existiam, portanto, onze peleadores famintos por sucesso na sua frente, no entanto, Nascimento estava no lugar certo, na hora certa e atuando. Muitas vezes isso é mais importante do que a própria posição de um lutador no ranking e foi exatamente esse o caso.

A nobre arte tem que ser tratada com paixão em certa medida, e com muita frieza em outro aspecto. Por trás das cortinas, é melhor ser apaixonado pelo que faz, mas ser frio ao máximo. Só assim que a engrenagem gira. Muita gente não gosta desse lado do pugilismo, mas a verdade é que ele existe e é parte fundamental do boxe como business. Quanto mais cedo quem trabalha no meio entender isso, menos dinheiro, e tempo, perderá.

 

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